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Em grande parte do Leste Europeu está surgindo um novo tipo de conservadorismo, enquanto partidos da Polônia, no norte, à Bulgária, no sul, usam slogans populistas e nacionalistas para conquistar votos.
O primeiro-ministro Jaroslaw Kaczynski, da Polônia, cujo Partido Lei e Justiça está fazendo uma firme campanha para se reeleger no final deste mês, quer um expurgo da administração pública, acusando os comunistas e intelectuais de esquerda de encobrir a corrupção. Ele critica a União Européia por não proteger os valores familiares tradicionais e teme o renascimento de uma Alemanha revanchista que minaria a independência da Polônia.
Na Hungria, Viktor Orban, líder do partido conservador de oposição Fidesz, corteja a extrema-direita enquanto se recusa a distanciar-se de um novo grupo de extrema-direita que remonta aos anos fascistas da década de 1930. Na Eslováquia, a coalizão de Robert Fico, liderada pelos socialistas, depende dos nacionalistas de Jan Slota para continuar no poder. Na Bulgária os nacionalistas radicais estão em ascensão e os partidos da corrente dominante os estão aceitando, em vez de marginalizá-los.
Esse novo conservadorismo no Leste Europeu, pouco depois de a maioria da região ter aderido à União Européia em 2004, está se disseminando, ao mesmo tempo em que os partidos conservadores na Europa Ocidental se aproximam do centro.
A União por um Movimento Popular, de centro-direita, na França, liderada pelo presidente Nicolas Sarkozy, e o Partido Conservador, na oposição na Grã-Bretanha, liderado por David Cameron, tentam atrair uma geração mais jovem apelando para a modernidade, a tolerância e a globalização. Na Alemanha, a chanceler Angela Merkel, desejosa de atrair os jovens, especialmente as mulheres educadas, se esforça para modernizar seu partido, a União Democrata Cristã, tornando-o mais aberto para aceitar creches e enfrentar a mudança climática. Enquanto estes e outros partidos conservadores da Europa Ocidental continuam tendo muitos apoiadores que são céticos sobre a imigração e os direitos das minorias, eles não se esquivam mais dos desafios da globalização.
Os conservadores do Leste Europeu, porém, não estão apenas atrasados em relação a seus colegas da Europa Ocidental. Eles têm uma agenda totalmente diferente. "O que os novos autoproclamados revolucionários da Europa Central temem são os excessos da cultura pós-moderna e o colapso dos valores tradicionais", disse Ivan Krastev, diretor do Centro para Estratégias Liberais em Sófia. "Eles são nostálgicos e não utópicos, defensivos e não visionários", ele acrescentou.
O governo Kaczynski em Varsóvia apóia um papel maior da Igreja Católica para proteger a Polônia da invasão secularista da Europa Ocidental e da globalização do consumo, da mobilidade social e de novos valores.
"Os seguidores de Kaczynski incluem aqueles que saíram perdendo no processo de transformação", disse Grzegorz Gromadzki, um cientista político do centro de pesquisas Stefan Batory em Varsóvia. "Kaczynski sabe que se apoiar a modernização de uma sociedade mais aberta ele perderá o apoio da ala tradicional da Igreja Católica e da população rural."
Isso revela a diferença fundamental entre os partidos conservadores do Leste Europeu e seus homólogos no Ocidente. "É uma recusa a aceitar a modernização", disse Gromadzki.
Esse medo da modernização e o refúgio nos valores nacionalistas ou tradicionais se acelerou depois de 2004, quando a maioria do Leste Europeu entrou para a União Européia. Até então, a transformação econômica e política da região foi liderada por pequenas elites que tiveram grande sucesso nos dois objetivos estratégicos mais importantes desde o colapso do comunismo: entrar para a Otan, a aliança militar ocidental, e para a UE.
Mas a maneira como as elites assumiram o comando minou as frágeis instituições democráticas que surgiram depois de 50 anos de repressão. "O paradoxo é que a ascensão do populismo é resultado não tanto do fracasso, mas dos sucessos do liberalismo pós-comunista", disse Krastev. "Ao apresentar suas políticas não tanto como boas, mas como necessárias, não como desejáveis mas como racionais, as elites liberais não deixaram para a sociedade uma maneira aceitável de protestar ou expressar sua insatisfação." Em suma, o período de transição foi marcado por um controle excessivo da elite sobre os processos políticos.
A UE não deu atenção a esse déficit democrático, enquanto os comissários em Bruxelas se concentravam quase exclusivamente na medida em que esses países cumpriam as 80 mil páginas de leis e regulamentos da União. "Tivemos de mostrar que éramos alunos exemplares", disse Gromadzki. "Não podíamos dizer o que queríamos. Se tivéssemos feito isso, não teríamos sido aceitos. Agora existe uma sensação entre os políticos de que eles podem dizer o que quiserem. Eles revivem velhos temores e velhos inimigos."
Esses anos de transformação e o enfoque para a adesão à Otan e à UE também mostraram como era difícil criar partidos políticos fortes. "Durante quase 50 anos a vida política havia ficado em suspenso", disse Peter Balazs, professor de ciência política na Universidade Central Européia em Budapeste. "O nascimento de novos partidos políticos não teve tanto sucesso."
Tendo rompido seu silêncio depois de entrar para a UE, os líderes dos partidos conservadores da região se encontraram num dilema. Os Kaczynskis, Orbans ou Slotas às vezes falam com nostalgia do passado, especialmente dos anos entre 1918 e 1939. Este é muitas vezes seu período de referência, porque a vida política parou em 1939 quando a guerra irrompeu e foi proibida em 1945 quando os comunistas tomaram o poder.
Mas a nostalgia tem limites. Os partidos de direita dos anos 30 ficaram desacreditados por causa de sua associação com os nazistas. "Os partidos estão perdidos se tentarem recriar os séculos 19 ou 20", disse Balazs. Jiri Schneider, diretor do Instituto de Estudos de Segurança em Praga, disse que os partidos conservadores falharam ao decidir o que eles querem manter ou, de fato, o que querem se tornar. "Qual é realmente seu ponto de referência? Eles não podem alegar que são herdeiros desses partidos conservadores originais por causa de seu passado ignominioso. No entanto, não estão preparados para evoluir em partidos políticos conservadores modernos, em que o populismo ficará fora da agenda econômica e social", disse Schneider.
Com o tempo, poderá surgir no Leste Europeu uma classe média mais jovem que crie partidos conservadores capazes de combinar identidade nacional com uma sociedade e economia abertas. "A região precisa de uma classe média forte para criar partidos políticos estáveis", disse Gromadzki. "A transição ainda não terminou."
Friday, October 5, 2007
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